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Em Busca do Upaya Supremo: O Fim das Crenças?

Por L.C. Dias

"Transcorridos mais de vinte anos desde a minha visita ao templo budista fundado por Chagdud Rinpoche, reconheço hoje, com humildade e gratidão, que o Budismo não é apenas uma afinidade intelectual a ser reconhecida, mas o caminho que faz sentido ser trilhado nesta vida — e, se houver condições auspiciosas, nos próximos renascimentos humanos preciosos."

Minha jornada interior de autodescobrimento começou em 1990, aos 22 anos, quando estava concluindo o bacharelado em Ciências da Computação. Naquele momento, algo em mim já pressentia que a vida não poderia se resumir aos horizontes estreitos do sucesso profissional ou das certezas acadêmicas. Então, dei início a mais de duas décadas de busca ininterrupta por uma suposta Verdade que liberta, percorrendo os caminhos do Kardecismo, Esoterismo e Psicologia Transpessoal. 

Em 2005, visitei o Templo Budista Chagdud Gonpa Khadro Ling, fundado por Chagdud Tulku Rinpoche na cidade de Três Coroas, no Rio Grande do Sul. Aquela visita marcou profundamente meu coração. Pela primeira vez, senti o impacto silencioso de uma tradição espiritual viva, pulsante, encarnada, transmitida de coração a coração. O Budismo Tibetano deixou de ser apenas um objeto de estudo e passou a se apresentar como um chamado. Ainda assim, apesar do chamado claro e insistente, eu não consegui, naquele momento, estabelecer um vínculo mais profundo com o Dharma. Algo em mim ainda resistia ao compromisso.

Entretanto, o compromisso com a realização interior continuava firme, sempre ao encontro de visões mais profundas da realidade, aperfeiçoando cada vez mais o mapa, mas com poucas incursões no território do real. Foi neste contexto de busca excessivamente intelectual, quase obsessiva, que, em 2014, fui surpreendido por uma crise existencial devastadora. Paradoxalmente, tudo parecia estar bem: família, trabalho e amigos. Ainda assim, nada mais fazia sentido. Nem o caminho, nem o caminhante, nem o próprio ato de caminhar. A visão de mundo que eu havia construído com tanto esforço revelou-se frágil, excessivamente mental. Eu havia compreendido muitas coisas, mas não as havia realizado. Faltava-me a experiência direta, encarnada, que pudesse sustentar aquilo que eu pensava saber sobre o eu e sobre a realidade.

Foi somente em 2015, após um período de profundo sofrimento, que compreendi que atravessava aquilo que muitas tradições espirituais descrevem como uma emergência espiritual ou noite escura da alma. Com o apoio atento, ético e profundamente humano de um psicoterapeuta qualificado — um verdadeiro conhecedor das profundezas sombrias da psique — vivi experiências transpessoais libertadoras. Elas me permitiram tocar uma dimensão atemporal da realidade e reconhecer as raízes kármicas antigas, silenciosas, das dores que eu carregava nesta existência. Não se tratava de revelações espetaculares, mas de deslocamentos sutis e irreversíveis: a percepção de que muito do que eu chamava de “eu” era apenas história acumulada, medo cristalizado, identidade defensiva.

Em 2017, senti a necessidade de dar voz a essas experiências e reflexões. Assim nasceu o blog Além da Crença, não como um espaço de ensino ou autoridade espiritual, mas como um território de testemunho honesto — uma tentativa de nomear o indizível sem transformá-lo em dogma. Desde sua abertura inaugural, o blog foi marcado por uma citação do Sutra dos Kālāmās, aquele ensinamento radical em que o Buda convida à desconfiança lúcida: não aceitar algo por tradição, autoridade, escrituras ou lógica aparente, mas apenas quando, pela própria experiência, se reconhece que algo conduz à lucidez e à diminuição do sofrimento. Esse gesto inaugural já continha, em germe, a pergunta que atravessaria todo o projeto: o que resta quando as crenças caem?

Dois anos depois, em 2019, movido pelo fascínio por fenômenos anômalos e estados ampliados de consciência, criei um segundo blog, Lei do Uno. Naquele período, eu estava profundamente envolvido com a ideia de uma transição planetária iminente. A pandemia do coronavírus pareceu confirmar minhas intuições: tudo indicava que um velho ciclo se encerrava e que um novo estava prestes a emergir. Acreditei que vivíamos as dores do parto de uma humanidade transfigurada, que a Kali Yuga se dissolvia para dar lugar a uma nova era de luz. Havia sinceridade nesse impulso, mas também — como mais tarde se tornaria evidente — um refúgio sutil do ego em narrativas grandiosas.

Com o tempo, essa clareza se impôs de forma inevitável: eu havia sido novamente capturado pelas armadilhas sofisticadas da mente egoica. Percebi como o ego não sobrevive apenas em desejos grosseiros ou identidades banais, mas também — e talvez sobretudo — em construções espirituais elevadas. Ideias de redenção coletiva, saltos evolutivos e cosmologias sublimes funcionavam como proteções contra o contato direto com a vulnerabilidade essencial da condição humana. Mais uma vez, não eram as ideias o problema, mas o apego a elas; não os símbolos, mas a identificação silenciosa que os transformava em crença.

Foi nesse ponto que, em novembro de 2024, retornei ao Budismo com um interesse qualitativamente distinto. Não como quem busca mais um sistema explicativo, mas como quem reconhece a necessidade de um caminho de treinamento da mente e transcendência do ego. Motivado pelas impactantes palestras ministradas pelo Lama Rinchen Gyaltsen, pertencente à tradição Sakya do Budismo Tibetano, disponibilizadas gratuitamente no YouTube, iniciei então um programa de formação nos ensinamentos do Mahayana e Vajrayana, organizados pela Fundación Sakya da Espanha, concluindo, em 2025, o curso online “Entrenamiento Mental Integral”, dedicado à prática intensiva de Lojong. Atualmente, estou participando do Programa Dharma Chakra, uma formação mais extensa em filosofia budista, acompanhada da sua aplicação na vida cotidiana. 

Paralelamente, no mesmo período, tive o privilégio de conhecer uma unidade do Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Florianópolis, Santa Catarina, onde fui acolhido pela sangha e encontrei, nos estudos semanais — especialmente na contemplação de As Palavras do Meu Professor Perfeito, de Patrul Rinpoche — um espaço vivo de escuta e amadurecimento interior. O Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) foi fundado em 1986, em Porto Alegre, pelo Lama Padma Samten, discípulo de Chagdud Tulku Rinpoche, mestre da tradição Nyingma do Budismo Tibetano. A organização possui diversos centros e grupos de estudo em todo o Brasil. Esses centros servem como núcleos para ensinamentos, meditação e atividades comunitárias. 

Portanto, transcorridos mais de vinte anos desde a minha visita ao templo budista fundado por Chagdud Rinpoche, reconheço hoje, com humildade e gratidão, que o Budismo não é apenas uma afinidade intelectual a ser reconhecida, mas o caminho que faz sentido ser trilhado nesta vida — e, se houver condições auspiciosas, nos próximos renascimentos humanos preciosos. 

A decisão de adotar o Dharma Budista como caminho, foi motivada a partir de três constatações. Primeiramente, o perigo maior não está em negligenciar a necessidade de assumir uma prática espiritual genuína, mas em adiar indefinidamente o processo de transformação interior, enquanto os venenos mentais continuam ativos, solapando a nossa liberdade de escolha. Neste sentido, avaliar um caminho exige comprometimento com as práticas deste caminho, não opinião a de terceiros e muito menos especulação filosófica, mas sim, experiência em primeira mão. Pois,  nenhum método serve para todos e nenhuma tradição existe fora de um contexto histórico e humano específico. No entanto, o critério é simples e rigoroso: os venenos diminuem? A compaixão aumenta? Se sim, o caminho é adequado.

Segunda constatação, misturar métodos de diferentes tradições indiscriminadamente pode gerar confusão em vez de liberdade. Assim como um veículo precisa de coerência interna para funcionar, a prática espiritual exige continuidade e profundidade. Abandonar constantemente um caminho quando surgem dificuldades é apenas circular em torno da montanha do despertar. A espiritualidade autêntica reduz os venenos; não os intensifica.

E por último, a relação com um mestre espiritual, quando presente, deve ser examinada com lucidez. Um verdadeiro professor encarna os ensinamentos que transmite. A confiança não nasce da devoção cega, mas da transformação concreta da mente do aluno. Quando isso ocorre, a relação se torna um campo fértil de crescimento mútuo. O objetivo nunca são experiências extraordinárias, mas a mudança gradual e irreversível da orientação interior: menos ego, mais abertura; menos medo, mais clareza.

Nada disso exige abandonar a vida cotidiana. Pelo contrário, é precisamente nela que o treino se torna real. A realização não depende de cenários extraordinários, mas de uma fidelidade diária ao trabalho interior. Quando a mente é treinada, a vida comum deixa de ser um obstáculo e se revela como o próprio caminho. A prática não está restrita a posturas formais. Ela acontece na fila do mercado, no trânsito, no banho, ao lavar pratos. Quanto mais frequente, mais eficaz. 

É a partir desse percurso — feito de buscas sinceras, ilusões necessárias, quedas instrutivas e constatações — que emerge a questão central deste ensaio conclusivo do Além da Crença: o que significa, afinal, falar em “fim das crenças”? E mais profundamente: existiria um upaya supremo capaz de nos conduzir para além da compulsão de substituir crenças antigas por crenças mais refinadas?

No Budismo, upaya — meios hábeis — não designa uma técnica isolada, mas uma atitude radical diante da verdade. Todo ensinamento é provisório, contextual, relacional. Seu valor não reside em sua coerência lógica nem em sua beleza simbólica, mas em sua capacidade concreta de reduzir o sofrimento e dissolver o apego. O Dharma não é algo em que se acredita, mas algo que se pratica, se testa e, quando necessário, se abandona. Até mesmo os ensinamentos do Buda são apresentados como instrumentos: balsas para atravessar o rio, não ídolos a serem carregados após a travessia.

Nesse sentido, o Budismo se revela como upaya supremo, não por proclamar verdades finais, mas por desmontar sistematicamente a tendência da mente a absolutizar qualquer formulação — inclusive as budistas. A vacuidade (śūnyatā) não é uma nova metafísica, mas um antídoto contra toda metafísica. Ela impede que conceitos se solidifiquem em crenças identitárias e preserva o caminho como processo vivo, aberto e compassivo.

O verdadeiro “fim das crenças” não conduz ao niilismo, mas ao colapso da necessidade psicológica de se proteger por narrativas fixas. Quando crenças caem, não resta um vazio estéril, mas a possibilidade de um contato mais direto com a experiência: com a impermanência, a insatisfatoriedade, a interdependência e, paradoxalmente, com uma compaixão menos idealizada e mais encarnada.

É nesse ponto que o ideal do bodhisattva se apresenta como a expressão mais madura desse upaya. O bodhisattva não abandona crenças para habitar um silêncio privado, mas, ao reconhecer a vacuidade do eu e dos fenômenos, escolhe permanecer no mundo do sofrimento por compaixão. Sua ética não se apoia em mandamentos absolutos, mas em uma sensibilidade afinada pela compreensão profunda da interdependência.

Aqui, a ponte com a Regra de Ouro, ideia que fundamenta a ética da fraternidade universal, presente nas grandes tradições de sabedoria da humanidade, torna-se clara. “Não faças ao outro o que não queres que te façam” ou “faz ao outro o que gostarias que te fosse feito” são formulações éticas universais que emergem da intuição de que o sofrimento do outro não é estranho a nós. O bodhisattva aprofunda essa intuição até sua raiz: age não apenas por empatia ou reciprocidade, mas porque a separação entre “eu” e “outro” é reconhecida como convencional. A compaixão deixa de ser um dever moral e torna-se expressão espontânea da sabedoria.

Talvez seja esse o sentido mais profundo do “fim das crenças”: não a ausência de caminhos, mas a maturidade de caminhar sem muletas conceituais; não o abandono da ética, mas sua interiorização silenciosa; não o silêncio do mundo, mas uma escuta mais refinada da vida tal como ela é.

O blog Além da Crença nasceu, simbolicamente, sob a luz do Sutra dos Kālāmās, como um convite à liberdade interior e à desconfiança lúcida diante de toda autoridade não verificada. Hoje, ao reconhecer o Budismo não mais como objeto de crença, mas como caminho de prática, esse ciclo se completa e se transforma. 

É nesse espírito que surge o novo blog Vislumbres da Outra Margem: não como negação do que veio antes, mas como seu amadurecimento natural — um espaço dedicado ao Budismo vivido, contemplado e praticado, onde os ensinamentos são tratados como meios hábeis e não como verdades a serem defendidas.

Se o Além da Crença foi o lugar de mapear a travessia, Vislumbres da Outra Margem nasce como o espaço do olhar e do vivenciar — não o olhar de quem chegou a algum lugar definitivo, mas o de quem está buscando vencer o enorme desafio de levar a prática do Dharma para a vida cotidiana. 

E é exatamente nesse ponto que a ideia de upaya supremo deixa de ser um conceito budista e se torna uma postura existencial: usar forma sem se aprisionar à forma, usar linguagem sem confundir linguagem com verdade, usar o caminho sem transformar o caminho em identidade. 

Por isso, paradoxalmente, o verdadeiro upaya se revela quando já não precisamos mais chamá-lo de supremo, pois o método se torna dispensável ao tornar-se a própria expressão do despertar, uma manifestação pura e sábia de um coração radiante.


NOTA: Para acessar o novo blog sobre Budismo: vislumbres-outra-margem.blogspot.com/


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